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Viés de Gênero na Medicina: Por Que a Ausência de Mulheres nos Estudos Clínicos Ainda Prejudica a Saúde

Você já tomou um remédio receitado pelo médico e sentiu um efeito colateral diferente do que estava na bula? Ou percebeu que a dose prescrita parecia excessiva para o seu corpo? Existe uma explicação científica para isso — e ela tem a ver com uma falha histórica que está no coração da medicina moderna: a maioria dos medicamentos foi desenvolvida, testada e aprovada com base em corpos masculinos.

Esse não é um argumento ideológico. É um problema documentado por pesquisadores, agências regulatórias e revistas científicas do mundo inteiro — com consequências que vão de efeitos colaterais evitáveis até tragédias com milhares de vítimas.


O que significa "testar medicamentos em corpos masculinos"?

Quando um laboratório desenvolve um novo medicamento, ele passa por fases: primeiro testes em células, depois em animais e, por fim, em humanos. O problema começa já na primeira etapa.

De acordo com dados analisados pela revista The Economist em parceria com a Fundação do Cérebro Feminino em 2023, ainda há 5,5 vezes mais estudos usando apenas animais machos do que estudos que incluem animais fêmeas. Isso significa que o viés de gênero está embutido na ciência desde o início — antes mesmo de o medicamento chegar a um ser humano.

Quando os testes chegam à fase humana, o histórico não é muito diferente. Por décadas, as mulheres foram sistematicamente excluídas dos ensaios clínicos, sob o argumento de que os hormônios femininos tornavam os dados "menos limpos", mais caros de analisar e mais difíceis de interpretar. O artigo "Testing Males and Females in Every Medical Experiment Is a Bad Idea" publicado na revista Scientific American em 2014 chegou a afirmar que incluir ambos os sexos nos experimentos era um desperdício de recursos.

O resultado prático: um medicamento aprovado "para todos" foi, na prática, aprovado para homens — e depois simplesmente distribuído para a população inteira, incluindo mulheres, crianças e idosos, como se fossem apenas versões menores do mesmo organismo.


Talidomida: a tragédia que deveria ter mudado tudo

O caso mais conhecido — e mais grave — desse tipo de negligência é o da talidomida. Lançada em 1957 pela empresa farmacêutica alemã Chemie Grünenthal, a substância era comercializada como sedativo e calmante para ansiedade e dificuldade para dormir. Logo passou a ser indicada para enjoos matinais em gestantes — ou seja, para uma condição exclusivamente feminina, em uma fase da vida especificamente feminina.

O problema: o medicamento nunca havia sido adequadamente testado em mulheres grávidas.

Segundo o Escândalo da Talidomida, o uso da substância em 46 países resultou no que foi chamado de "o maior desastre médico causado pelo homem de todos os tempos": mais de 10 mil crianças nasceram com deformidades graves, como a focomelia (ausência ou subdesenvolvimento dos membros), além de um número desconhecido de abortos espontâneos.

A empresa só pediu desculpas formalmente em 2012 — mais de 50 anos depois. O Brasil tem o triste título de ser o único país do mundo com uma terceira geração de vítimas da talidomida, por ter mantido o medicamento em uso por mais tempo do que outros países.

O escândalo gerou reformas regulatórias importantes, como a Emenda Kefauver-Harris nos Estados Unidos e a Diretiva 65/65/EEC na Europa. Mas o viés masculino nos testes clínicos continuou existindo.


Zolpidem: o sonífero que deixava mulheres sonolentas ao volante

Décadas após a talidomida, uma história parecida — menos dramática, mas igualmente reveladora — se repetiu com o zolpidem, o princípio ativo de remédios para insônia como o Stilnox e o Lioram, amplamente usados no Brasil.

O zolpidem entrou no mercado no início dos anos 1990 com uma dose padrão de 10 miligramas para todos os adultos. Essa dose foi definida com base em estudos feitos predominantemente em homens.

Em janeiro de 2013, a FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) anunciou uma mudança urgente: pediu aos fabricantes que reduzissem a dose recomendada para mulheres pela metade — de 10 mg para 5 mg nos produtos de uso imediato, e de 12,5 mg para 6,25 mg nas versões de liberação prolongada.

O motivo? Estudos laboratoriais e simulações de direção mostraram que mulheres eliminam o zolpidem mais lentamente do que homens. Isso faz com que a substância permaneça em concentrações elevadas no organismo feminino na manhã seguinte — e que mulheres se sentem ao volante ainda sedadas, sem perceber o perigo.

Segundo pesquisa da Enciclopédia Diferença e Saúde em Perspectiva, a eliminação do medicamento em mulheres é, em média, 35% mais lenta do que em homens. Essa diferença fisiológica existia desde sempre — mas levou mais de 20 anos de uso do medicamento para ser formalmente reconhecida pela agência regulatória mais importante do mundo.

Um detalhe ainda mais preocupante: segundo levantamento feito no Bulário Eletrônico da Anvisa de 2023, nenhuma das bulas brasileiras do zolpidem fazia menção a essa diferença farmacocinética entre os sexos.


Dor crônica, doenças autoimunes e o silêncio sobre o corpo feminino

Talidomida e zolpidem são os exemplos mais citados, mas o problema é muito mais amplo.

De acordo com dados publicados pela Swiss Info (2024) com base em estudos internacionais: embora as mulheres representem 70% dos pacientes com dor crônica, 80% dos estudos sobre o tema são conduzidos apenas em homens ou camundongos machos. Doenças como esclerose múltipla (duas vezes mais frequente em mulheres), lúpus e outros distúrbios autoimunes ainda são predominantemente pesquisadas em populações masculinas.

Segundo artigo publicado no PLOS Medicine e revisado pelo NIH (2018), efeitos colaterais que afetam mulheres de forma preferencial ou mais intensa frequentemente não são descobertos até depois da aprovação e comercialização do medicamento. Na prática, o mercado funciona como o laboratório que deveria ter existido antes.


Por que isso aconteceu? (E por que ainda acontece)

As razões são uma mistura de ciência, economia e preconceito histórico.

Do ponto de vista prático, incluir mulheres nos estudos é mais complexo: os hormônios variam ao longo do ciclo menstrual, é preciso controlar o risco de gravidez durante os testes, e a análise dos resultados exige estratificação por sexo — o que aumenta custos e tempo.

Do ponto de vista histórico, a pesquisadora Caroline Criado Pérez, no livro "Mulheres invisíveis: O viés dos dados em um mundo projetado para homens", documenta como o viés masculino na medicina remonta à Antiguidade, quando Aristóteles descrevia o corpo feminino como um "corpo masculino incompleto". Essa visão — o homem como padrão universal — atravessou séculos e se consolidou nas práticas científicas modernas.


O que está mudando — e o que ainda falta

A partir dos anos 1990 e com maior força nos anos 2000, agências regulatórias começaram a exigir inclusão feminina nos ensaios clínicos. Em 2016, foram publicadas as diretrizes SAGER (Sex and Gender Equity in Research), voltadas para a integração de sexo e gênero em toda a cadeia da pesquisa científica. O NIH (EUA), os Institutos Canadenses de Pesquisa em Saúde e a Comissão Europeia passaram a exigir que o sexo fosse declarado como variável experimental nos projetos financiados.

Mas mudanças regulatórias não mudam culturas de laboratório da noite para o dia. Segundo estudo publicado no Frontiers in Global Women's Health (2024), ainda não há consenso científico sobre o que constitui um viés de sexo significativo em pesquisa biomédica — o que dificulta a identificação e correção do problema.


Corpos diferentes, remédios diferentes

A ciência médica foi construída com base em um corpo que não existe: o "homem médio de 70 kg", sem variações hormonais, sem útero, sem as particularidades fisiológicas que distinguem metade da humanidade da outra.

Os casos da talidomida e do zolpidem não são acidentes históricos isolados. São sintomas de um sistema que tratou o corpo feminino como uma variante menor, mais complicada, menos digna de estudo. E as consequências desse silêncio foram reais: bebês sem membros, motoristas sonolentas ao volante, e décadas de efeitos colaterais que ninguém havia previsto porque ninguém havia pensado em perguntar. 

Conhecer esse problema nos serve para exigir que a ciência seja o que sempre prometeu: rigorosa, abrangente e comprometida com a saúde de todos os seres humanos — independentemente de gênero.

Fontes:

 

 

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