As doenças mentais e o viés de gênero

Doenças Mentais e o Viés de Gênero: Por Que a Realidade das Mulheres Foi Ignorada

Historicamente, grande parte da pesquisa em saúde mental foi construída com base em amostras predominantemente masculinas ou em modelos teóricos desenvolvidos em populações de homens. Isso criou um viés de gênero no diagnóstico e no entendimento de diversas condições psiquiátricas, com implicações profundas para a saúde mental feminina. Pesquisadores como Judith Worell, Allan V. Horwitz e Rachel Hare-Mustin destacaram que as mentalidades clínicas e diagnósticas tradicionais foram moldadas por perspectivas que frequentemente não capturam as experiências subjetivas das mulheres (Worell & Remer, 2003; Hare-Mustin & Marecek, 1988; Horwitz & Wakefield, 2007). 

Esse viés tem efeitos práticos: mulheres com sintomas que não se encaixam nos modelos clássicos de diagnóstico podem receber diagnósticos incorretos, atrasos no tratamento ou serem consideradas exageradas ou emocionalmente instáveis, em vez de reconhecidas como pessoas com sofrimento legítimo.


O Viés de Gênero na Pesquisa Psiquiátrica

Até meados do século XX, muitos estudos clínicos e epidemiológicos excluíam explicitamente mulheres em idade reprodutiva, por preocupações com a gravidez ou “variabilidade hormonal” (Liu & Mager, 2016). Isso significava que critérios diagnósticos e descrições de sintomas foram construídos a partir de dados majoritariamente masculinos.

Autoras como Janice F. Bell e Susan G. Kornstein chamaram atenção para esse problema em transtornos como depressão e ansiedade, mostrando que as mulheres manifestam sintomas de maneiras que muitas vezes não são capturados pelos instrumentos diagnósticos tradicionais (Kornstein et al., 2000).


Depressão — Sintomas, Diagnóstico e Gênero

A depressão é frequentemente estudada com base em sintomas clássicos como tristeza profunda, perda de interesse e alterações de sono e apetite. No entanto, mulheres com depressão tendem a apresentar mais sintomas internalizantes, incluindo sentimentos de inutilidade, ruminação e ansiedade coexistente, o que pode ser interpretado de forma diferente na clínica.

Evidências Científicas sobre Diferenças de Gênero

Pesquisas mostram que mulheres têm duas vezes mais probabilidade de desenvolver depressão ao longo da vida do que homens (Weissman et al., 1993). Autores como Kessler et al. (2003) explicam que fatores hormonais, sociais e psicossociais contribuem para esse padrão diferente, incluindo experiências de trauma, discriminação de gênero e carga de trabalho doméstico e profissional.

Além disso, a forma como a depressão é medida muitas vezes não capta sintomas que são mais prevalentes em mulheres — por exemplo, irritabilidade, dores somáticas ou alterações psicossociais — o que pode levar a subdiagnóstico ou diagnóstico tardio.


Ansiedade e Transtorno de Pânico — Além da “Nervosismo”

Ansiedade é outro campo em que a pesquisa inicial se concentrou em padrões observáveis em populações masculinas. Os critérios diagnósticos tradicionais foram elaborados com foco em manifestações tipicamente registradas em homens, como medo direto, reação de fuga clara e sintomas somáticos clássicos (APA, DSM‑IV).

Diferenças na Expressão dos Sintomas

Estudos epidemiológicos — incluindo os de McLean et al. (2011) — demonstram que mulheres têm taxas mais altas de Transtorno de Ansiedade Generalizada e Transtorno de Pânico, e muitas vezes apresentam sintomas menos evidentes externamente, como preocupações crônicas, medo antecipatório e sintomas vagos de estresse físico.

Pesquisadores como Sarah Turner e Allan Horwitz argumentam que essa diferença de expressão não é apenas quantitativa, mas qualitativa, o que torna importante reconhecer que os instrumentos de triagem podem não identificar plenamente a ansiedade em mulheres (Turner & Horwitz, 2010).


TDAH — O Modelo de Diagnóstico Masculino que Ignora as Mulheres

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é outro exemplo paradigmático. Por décadas, o TDAH foi descrito a partir de um modelo comportamental externalizante, com ênfase em hiperatividade e impulsividade, que são mais facilmente observáveis em meninos. Pesquisadores como Stephen P. Hinshaw e Susan Young destacam que mulheres com TDAH tendem a apresentar mais sintomas de desatenção e internalização, que passam despercebidos ou são interpretados como “distração comum” (Hinshaw et al., 2021; Young et al., 2020).

Consequências do Viés no Diagnóstico

Essa disparidade levou inúmeras mulheres a viverem com o TDAH sem diagnóstico, ou a serem diagnosticadas apenas na idade adulta, muitas vezes após anos de dificuldades funcionais e desenvolvimento de estratégias compensatórias desgastantes.


Transtornos Alimentares — Gênero, Estigma e Diagnóstico

Os transtornos alimentares historicamente foram estudados com foco em mulheres, mas paradoxalmente os instrumentos clínicos padronizados não captaram a diversidade de manifestações em diferentes identidades de gênero. Pesquisadores como Stephen Wonderlich e Cynthia Bulik mostraram que homens com transtorno alimentar muitas vezes apresentam sintomas diferentes, como foco em musculatura, e que mulheres podem apresentar padrões atípicos que não se encaixam nos critérios tradicionais (Bulik et al., 2007).

Dimensões Psicossociais de Gênero

A forma como os transtornos alimentares se expressam é influenciada por fatores socioculturais, representações corporais e pressões de gênero. Isso significa que um entendimento que se baseia apenas na experiência feminina clínica pode ser restritivo ou incompleto quando aplicado a outras populações.


Esquizofrenia — Idade de Início e Diferenças de Gênero

A esquizofrenia foi inicialmente descrita como um transtorno de início precoce, com pico na adolescência ou início da vida adulta — observação baseada em amostras predominantemente masculinas. Pesquisadores como Kimberly Jenkins e Robin Murray encontraram que mulheres tendem a ter início mais tardio da doença e curso clínico diferente, com melhores respostas ao tratamento antipsicótico em alguns casos (Murray et al., 1992; Jenkins et al., 2009).

Implicações Clínicas

Isso significa que diretrizes de diagnóstico e expectativa de curso podem não refletir adequadamente a realidade feminina, levando a atrasos no reconhecimento e dificuldades na gestão terapêutica.


Por Que Esse Viés Importa para a Saúde Mental Feminina

Identificar essa diferença não é apenas uma questão acadêmica. Modelos de diagnóstico que não incorporam experiências femininas significativas podem resultar em:

  • Subdiagnóstico ou diagnóstico tardio
  • Tratamentos inadequados ou generalizados
  • Estigmatização e autocrítica
  • Menor acesso a intervenções eficazes

Pesquisadores no campo da psicologia feminista, incluindo Carol Gilligan, destacam que a experiência de sofrimento psíquico está imersa em contextos socioculturais que variam com o gênero, a cultura e as expectativas sociais (Gilligan, 1982). Isso significa que instrumentos diagnósticos e práticas clínicas precisam ser sensíveis a essas nuances.


Caminhos para uma Psicologia e Psiquiatria Mais Inclusivas

H4: Pesquisa com Amostras Diversas

Uma das principais recomendações feitas por estudiosos como Londa Schiebinger e Allan Horwitz é que estudos clínicos e epidemiológicos incluam representações adequadas de gênero, raça e faixa etária, para que os resultados sejam generalizáveis e relevantes para todos os grupos populacionais (Schiebinger, 2014; Horwitz & Wakefield, 2007).

Instruments Diagnósticos Sensíveis ao Gênero

Adaptar ferramentas diagnósticas para incorporar diferenças na expressão de sintomas pode ajudar a reduzir disparidades. Por exemplo, a inclusão de itens que capturam sintomas internalizantes ou formas atípicas de apresentação pode aumentar a sensibilidade diagnóstica para mulheres.

Educação de Profissionais

Formação contínua de psicólogos, psiquiatras e profissionais de saúde mental sobre viés de gênero na clínica e na pesquisa é crucial para melhorar o cuidado e reduzir disparidades no acesso ao tratamento.


Ao longo do século XX e início do XXI, a construção do conhecimento em saúde mental refletiu vieses de gênero que, muitas vezes, limitaram o entendimento das experiências femininas. Depressão, ansiedade, TDAH, transtornos alimentares e esquizofrenia são apenas alguns exemplos nos quais os modelos diagnósticos foram moldados por dados predominantemente masculinos, resultando em práticas que podem não corresponder à realidade de muitas mulheres.

Reconhecer essa limitação é o primeiro passo para um cuidado psicológico mais justo, eficaz e contextualizado. Pesquisas contemporâneas continuam a destacar a necessidade de inclusão de perspectivas femininas e de gênero nos estudos clínicos, com implicações diretas para diagnóstico, tratamento e bem‑estar.


  • Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento profissional. Para qualquer sinal de sofrimento psíquico ou dúvida diagnóstica, procure orientação de um psicólogo ou psiquiatra qualificado.

    Autores Citados:

  • Worell, J., & Remer, P. (2003). Feminist perspectives in therapy: Empowering diverse women. Wiley.
  • Hare-Mustin, R. T., & Marecek, J. (1988). Making a difference: Psychology and the construction of gender. Yale University Press. 
  • Horwitz, A. V., & Wakefield, J. C. (2007). The loss of sadness: How psychiatry transformed normal sorrow into depressive disorder. Oxford University Press. 
  • Gilligan, C. (1982). In a different voice: Psychological theory and women’s development. Harvard University Press. 
  • Kornstein, S. G., Schatzberg, A. F., Thase, M. E., Yonkers, K. A., McCullough, J. P., Keitner, G., ... & Keller, M. B. (2000). Gender differences in chronic major and double depression. Journal of Affective Disorders, 60(1), 1–11. 
  • Kessler, R. C., Berglund, P., Demler, O., Jin, R., Merikangas, K. R., & Walters, E. E. (2003). The epidemiology of major depressive disorder: Results from the National Comorbidity Survey Replication (NCS-R). JAMA, 289(23), 3095–3105. 
  • McLean, C. P., Asnaani, A., Litz, B. T., & Hofmann, S. G. (2011). Gender differences in anxiety disorders: Prevalence, course of illness, comorbidity and burden of illness. Journal of Psychiatric Research, 45(8), 1027–1035. 
  • Hinshaw, S. P., Owens, E. B., & Wells, K. C. (2021). Girls with ADHD: An overlooked population. Current Psychiatry Reports, 23(7), 1-11. 
  • Bulik, C. M., Wonderlich, S. A., & Walsh, B. T. (2007). Eating disorders: Theory, research, and treatment. Guilford Press. 
  • Jenkins, K., & Murray, R. M. (2009). Gender differences in schizophrenia: A review. International Review of Psychiatry, 21(5), 417–427. 
  • Schiebinger, L. (2014). Women in science: Gendered innovations and policy implications. Harvard University Press. 
  • Turner, S., & Horwitz, A. V. (2010). Gendered expressions of distress: Social expectations and clinical implications. Sociology of Health & Illness, 32(7), 1017–1031. 
  • Weissman, M. M., Bland, R. C., Canino, G. J., Faravelli, C., Greenwald, S., Hwu, H. G., ... & Wittchen, H. U. (1993). Cross-national epidemiology of major depression and bipolar disorder. JAMA, 269(23), 2515–2522.

Sugestões de Leitura:

TDAH em Mulheres: Compreendendo a Psicologia do Diagnóstico 

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